domingo, 22 de novembro de 2009
O Sótão
Não encontrava canto na casa que não o expulsasse. Os rostos nos quadros o encaravam e mil vozes se confundiam nos seus ouvidos, na sua cabeça. O desespero tomava conta de todos os seus músculos, agora incontrolavelmente trêmulos.
Despiu-se ainda sem saber muito bem como chegar ao chuveiro. Quando o encontrou, fez despejar sobre si a água mais gelada para o banho. Sentiu a água lutar contra a brasa que ardia em seu peito. Urrou de dor e sentiu escorrer em seu rosto lágrimas quentes, misturadas agora ao jato de água fria que descia em seu corpo. Desciam juntas, agora.
Demorou-se ali, mas sentia ainda o ardor, a dor. Desistiu e, ainda nu, saiu pela casa, molhando o carpete e o piso taqueado. Andou em círculos e em uma dessas voltas escorregou na água que formava uma poça sobre o piso. Bateu a cabeça e, quando pôs-se de pé, sentiu tonteira e quase caiu novamente. Passada a vertigem, sentiu quente escorrer-lhe pela fronte o sangue que se precipitava pelo corte. Praguejou contra a própria burrice e continuou pela casa. Procurava algo. Vasculhava cada gaveta e cada canto nos armários. Estava ali em algum lugar.
De repente, um estalo:
- Claro. O sótão!
Caminhou com passos firmes, decididos. Inclinou a pequena escada em direção ao sótão e ali vasculhou ainda procurando. O calor do seu corpo já havia evaporado quase toda a água em sua superfície. Arranhou-se esbarrando algumas velharias no sótão até que por fim encontrou, no interior de uma caixa de madeira trabalhada, gravada com o nome de seu avô, homem forte, honrado, Oswaldo, a arma dos tempos de militar. Na mesma caixa ainda havia munições, escolheu três. Desceu pela escada, mais trêmulo; chorava. Adentrou a sala de estar, os retratos pareciam assistir a cena. Carregou o revólver lentamente. Suas mãos vacilantes seguravam o revólver e, antes de apontá-lo para a própria boca, respirou fundo e olhou ao redor. O ferro estava frio, morto. Hesitou ainda alguns segundos e sentiu com a língua o gosto da pólvora antes que pudesse sentir e a tensão de cada nervo sob a pele. Não tremia mais, nem nada. A sensação fria em sua boca agora tomava o corpo e tudo parecia ter congelado, tamanha a frieza. Só os o olhos ainda mexiam sob sua vontade.
As luzes se confundiam e tudo girava tão rápido que se fazia impossível entender qualquer imagem que tentava se formar em sua retina.
A última verdade despertava o maior medo. O medo fazia o suor escorrer frio. Tudo muito frio. A respiração ofegante de repente transpassada por um bafo insuportavelmente quente, simultâneo àquele ensurdecedor estampido e um clarão.
O revólver tombou para o lado ainda carregado de duas munições. Estava ainda quente, mas esfriariam, tanto o revólver como a carne posta ao lado.
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Continuar
Eu não rio de tudo, mas tento não chorar. A saudade é boa, é muito boa. Mentindo ao dizer que as coisas não vão mudar, não precisa, é visível, mais agora, já mudaram. Tente enxergar o lado mais concreto do todo, os fragmentos desconexos serão espalhados pelo tempo e nada os trará novamente ao seguro.
Uma estrada cheia de curvas e as curvas escondem o que ficou para trás. Siga, se permita olhar no retrovisor, e então despeça-se.
O copo está meio cheio ou meio vazio? Ainda perto ou distante agora?
Não é difícil...
Desconcerto
A cada ônibus, um impulso fantasiado, um retraimento, uma confusão. Doeria? A quem doeria?
De noite, chuva no telhado, canções lentas, insônia e ânsia. Dói. Sim, dói.
Faz-se silêncio em toda parte, todos os outros cômodos da casa, mas o ruído é ensurdecedor e vem de dentro, do meu particular, onde parecia mais seguro, mais controlável. Não era, não era. Agora eu vejo que tudo que vem de dentro é muito mais incontrolável. A própria ânsia, a dor e a insegurança, o arrepio, o ruído... Um desconcerto interno (total).
No fim, é só mais uma daquelas noites que já está por terminar. Bem ou mal, tanto faz. Só tem de terminar. Quando terminar, terminará só, por enquanto. Uma pausa para respirar.
Vou descobrir agora, finalmente, para sempre, se dói.
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Exceto no horário de pico
Hoje, no começo da noite, uma avenida importante da cidade estava parcialmente obstruída. Com isso, mais pessoas nervosas, xingando, olhando o relógio... o filme se repete. O problema é que daquela vez o problema já não era por conta do ônibus. A empresa já havia voltado ao trabalho. Daquela vez o problema era a morte de uma pessoa.
Não sei dizer se foi suicídio mesmo, mas é provável, já que o corpo estava sob as janelas de um dos prédios da tal avenida.
Escutei de alguém:
"O cara provavelmente passou o dia pensando em fazer isso, escolheu bem o horário de pico?!"
Quanta sentimentalidade, não?
De mudança
Se houvesse como mudar, eu mudaria. Mudaria tudo, muitas vezes, em inúmeras combinações diferentes. Mudaria-me e mudaria o dia de hoje. Mudaria o botão do mouse que eu usei, mudaria a hora que acordei, as palavras que falei, os desenhos que inventei. Eu mudaria os filmes que eu escolhi, os poemas que li e escrevi. Eu mudaria as verdades que escondi, e as que revelei também. Eu mudaria as noites de Lua cheia e o significado que tiveram. Eu mudaria mesmo, mudaria tudo.
Tudo isto que eu não posso mudar não me deixa triste. Nada me deixa triste, agora. Alegre também não, mas não ser triste é menos mau. Lembrar me deixa triste, mas está definido que isso não se repetirá por muito tempo.
“Todo carnaval tem seu fim, e é o fim, e é o fim
Deixa eu brincar de ser feliz, deixa eu pintar o meu nariz”
Quer saber?
Ainda há o que mudar.
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Reorganizando (haha)
Não que eu tenha alguma certeza, porque agora é que não a tenho mesmo. Certeza nenhuma de qualquer coisa. E, embora não haja certeza, bom mesmo é a segurança de estar alheio às surpresas. Pode parecer certeza, mas seguramente não é.
A incerteza não me proíbe de estar seguro com algo. Certeza, como eu já disse, eu realmente não tenho, mas estou seguro de uma única coisa que basta: Não vou me arrepender.
Não faz sentido, eu sei, não faz mesmo!
Eu estou seriamente decidido a não me arrepender. Decidido a organizar as idéias, quando sua ordem estiver bagunçada, remontar o quebra-cabeça sempre que me for necessário. Dessa vez não tem choro, não tem vela. O que está morto, enterro, bato a terra e volto a caminhar.
Hahaha...
Que triste!
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Festa da Boa Vizinhança
Passada a meia-noite, ainda entra pelas frestas da minha casa a música da festa na casa do vizinho. Não sei quando isso começou, mas eu gostaria de saber quando vai acabar.
Em outras circunstâncias a festa não me incomodaria, mas hoje não foi um dia bom.
Hoje acordei atrasado e com sono, fui privado do Sol e do céu que constituíam o dia agradável que se fez. Fiquei privado dele por uma boa causa, é bem verdade, mas não vou negar que a minha vontade foi, o dia todo, deitar na grama e fechar os olhos, sob o céu e o Sol.
Quando fui, de certa forma, posto em liberdade, corri o máximo que pude até chegar em casa. Tudo para assistir ao jogo que esperei a semana inteira. Cheguei no intervalo e tive duas péssimas notícias: Meu time estava perdendo e o goleiro do meu time havia sido expulso. O jogo era contra nosso rival e seria muito ruim se perdêssemos, com certeza teria alguém pra me zoar.
Acabou 2 a 2 e, pelo jogo que assisti, posso considerar isso um bom resultado.
Além disso, meu pai está doente, eu passei o dia pensando em saudade, desejando algo impossível, olhando o celular e tentando não dormir. Não acho justo meu vizinho deixar o som alto. Não hoje. Hoje tudo me irrita!
domingo, 1 de novembro de 2009
Um dia feliz, pra ninguém...
Não demorou a perceber que estava atrasado. As horas na cama não esgotaram seu cansaço e ali se deixou ficar mais tempo do que havia calculado, porém era tempo necessário. Tempo que lhe faria falta, com certeza, mas de que ele não se arrependeu por perder.
Nos últimos dias não havia gastado tantos minutos para si. Parou e pensou naquela semana que teria fim em algumas horas. Já nem lembrava como era ocupar o pensamento com coisas que não estivessem ligadas ao seu lado máquina. Naquele dia pensou.
Só então é que pôde perceber com calma que estava tudo diferente.
Naquela semana não houve reclamações, naquela semana foi dormir a hora que quis, ouviu as músicas que queria, no volume que lhe parecia justo, saiu com os amigos que teve vontade, comeu e bebeu o que quis. Naquela semana não se perguntou onde estava seu erro, naquela semana pra nada teve de se justificar, não precisou falar o que não queria, não teve de se forçar a nada.
Sentiu, sim, falta das chamadas não atendidas no celular e de encontrar a luz acesa ao abrir a porta. Teve de se acostumar a pegar a chave na portaria (no primeiro dia subiu direto e depois teve de voltar) e teve também a liberdade de mudar os canais o quanto quis.
Encontrava-se parado, sozinho na cama, pensando. Era sábado e hoje o expediente no trabalho duraria a metade dos demais dias da semana. Ia se atrasar, mas não se importou. Era um dia começando diferente e ele sabia exatamente tudo o que ia fazer. Se ia dar certo ou não, somente importaria a ele e mais ninguém. Ninguém.
Ouvindo:
Só por hoje - Detonautas Roque Clube
Pra Ninguém - Capital Inicial
sábado, 26 de setembro de 2009
Contagem
Impaciente, começou a também empurrar o homem para o lado. O homem, que percebera a hostilidade de Lívia, a encarava com plena insatisfação. Isto de nada importava a Lívia, que acreditava ser esta a solução: Irritar ao homem até que este se enchesse e partisse.
O homem sentindo-se desafiado, pareceu perceber a intenção da moça. Resmungou baixo, após um longo inspiro: “Mais um dia... mais um dia!”. Ao ouvir aquilo, Lívia pareceu despertar de uma noite mal dormida. “Menos um dia... menos um dia” pensou, então sorriu.
domingo, 13 de setembro de 2009
Intuição
Estava tão acostumado a desdenhar coisas de pouco valor material. Dessa vez desdenhei de uma bola daquelas ‘dente de leite’, que não custa mais que dois reais por aí.
Fazia nada em minha garagem, apenas andava de um lado para o outro. Não, eu não estava procurando algo, estava apenas andando mesmo. Eis que uma dessas bolas aparece na minha frente (não me lembro de ter visto antes alguma em minha casa). Não hesitei e decididamente imprimi um belo chute na pobre coitada. Foi um belo chute mesmo.
Nunca antes, em todos os meus dezessete anos de existência, me senti tão idiota por não escutar minha intuição. Eu estava atrasado para ir ao cursinho e tinha me aconselhado intimamente a sair logo de casa. Não escutei minha intuição e me demorei tempo suficiente para desdenhar aquela bola. Míope, nem me lembrei, ao menos, que estava com o óculos sobre o nariz antes de cometer aquela estupidez.
A bola acertou a parede e atravessou o ar de novo, só que desta vez em minha direção. Depois de a ter visto alguns centímetros distante do meu rosto, fechei os olhos como se fosse adiantar de algo. “Poof” e quando abri os olhos reconheci um mundo mais embaçado. Neste mundo havia dois pedaços de óculos no chão, bem perto, um corte no supercílio direito e uma bola saltitante saindo pela tangente.
Se sucederam, então, alguns dias sem enxergar a lousa, lamentos pelo meu óculos preferido, agora dividido em dois, e o desaparecimento da bola, que me ensinara a não mais desdenhar de coisas quase sem valor material e a ouvir mais a minha intuição.
domingo, 16 de agosto de 2009
Não bata a porta
Eu tenho pensado muito em você, desde aquele dia. É inevitável e eu já até me acostumei com essa idéia. O problema é que isso dói um pouco. E o pior é que o pouco que eu acabei de dizer é só um símbolo do significado que tem a dor. É eu acho que dói mais por saber a minha parcela de culpa.
Eu já disse que errei e disse que me arrependo pelo que esses erros fizeram com você. Eu já tentei mudar a concepção que formou a meu respeito. Infelizmente você se mostrou bastante inflexível e eu entendo.
Apesar de tudo, queria que aceitasse algumas diferenças nossas. Saiba que a sua insensibilidade fica insuportável quando começa a me acusar com suas bobagens. Eu odeio quando você diz que estou indiferente. Eu odeio quando insinua que eu não me preocupo com você e com o que sente, eu não lhe daria ouvidos, se não me preocupasse. PARE de apontar os meus erros como se eles fossem os únicos responsáveis da situação e, PIOR, como se eu já não os conhecesse muito bem.
Foi uma decisão de ambas as partes, ainda que pendesse mais do seu lado e há mais tempo também. Eu não esperava sair tão lesionado dessa pancada. Eu não esperava redigir essas linhas de desabafo.E sabe de uma coisa? Acho que esse foi o seu maior erro. Você decidiu que ia partir e me deixou escrever isso aqui.
Eu sei que não está sendo menos difícil para você, mas não vejo muitas alternativas.
Seria mais fácil se sumíssemos da vida um do outro, na verdade, mas receio que não seja possível. Pior que a impossibilidade da distância é eu não querer me distanciar. Eu sinto muito a sua falta. Falta do seu cheiro, da sua voz, do seu sorriso, das mão geladas, das mordidas doloridas, dos beliscões, das brigas e ainda mais falta da felicidade que isso tudo me trazia.
Eu me acostumei a estar sempre com você, de uma forma ou de outra. Me acostumei com os esforços pra te ver, fossem para te convencer a me encontrar, fossem para enfrentar os engarrafamentos, ônibus lotados, sono de sábado pela manhã, o que fosse preciso pra me encontrar com você. Me acostumei a ligar só pra dizer um ‘te amo’, ou pra saber se está tudo bem. Me acostumei a gostar de escolher e comprar botões de rosa vermelha. Me acostumei a ter você sempre como primeira coisa a se pensar. Você sabe o quanto isso é verdadeiro.
Tem sido desgastante conviver com tudo isso sem ter você por perto. Eu queria que você entendesse como pesa ter tudo isso e não ter o principal, não ter você. Não me julgue mais, eu não estou feliz como você pensa.
Se você vai mesmo, tente não fazer barulho ao abrir e fechar a porta. E quando sair, apague a Luz, pois eu não quero perceber tão logo a sua ausência.
Mudo
Às vezes não se trata de fugir, exatamente, e sim evitar. Nem sempre aquilo que você deixa de falar, por mais que te faça mal guardar, teria melhor efeito dita. Trata-se, então, de manter-se distante de uma situação pior.
O pior mesmo é deixar de falar o que alguém poderia estar esperando ouvir de você. Uma conclusão, uma declaração, uma bronca, um sinal de preocupação, um pedido de desculpas... Esse é mesmo o pior. Nem sempre pelo mal que pode te fazer, mas a quem há de se decepcionar com o seu silêncio. É bem verdade que às vezes se espera muito mais do que o aquilo que podemos atender, mas algumas coisas são tão simples que não doeria dizer, e mesmo assim não são ditas.
Às vezes somos tão tagarelas, disparando tantas ofensas, tantas inverdades, tantas provocações e quando nos encontramos satisfeitos, nos esquecemos completamente de dizer o mais importante, o que não devia ser omitido: O nosso pedido sincero de desculpas. Por outras vezes, ainda, esquecemos de dizer o que nem precisa ser dito para que seja sabido, mas algo que pode fazer falta a quem não o ouve de você. Às vezes amamos tanto a alguém, que simplesmente esquecemos de revelar isso a este, por parecer óbvio, talvez, mas que, por fim, pode fazer falta. Não se trata de namorado ou namorada apenas, mas todos aqueles que te fazem sentir melhor. Aqueles a quem você queria dizer e não disse.
Às vezes deixamos de falar o que mais desejamos, ou o que mais precisamos, ou o que mais esperam, simplesmente, mas não somos conscientes do quão próximo ficamos de deixar passar a última chance. Às vezes o silêncio pode se prolongar por um tempo maior que aquele que desejamos.
sábado, 8 de agosto de 2009
Submersão
Cada centímetro do meu corpo doía de frio quando submergiu naquela água tão fria em que caí. Meu corpo parecia contorcer-se involuntária e violentamente em busca de algum sólido. Meus pés esticados tentavam tocar algo, ao mesmo tempo em que desordenadamente tentavam manter minha cabeça para fora da água.
Era desesperadora a tentativa tão vã de erguer-se dali. Mais difícil a cada segundo passado, pois todos os músculos foram-se cansando e desistindo de lutar.
Todo o esforço dificultava a respiração e o cansaço parecia algo a me puxar o corpo com muita força em direção ao fundo. Um fundo que eu não sabia estar tão longe e temia mesmo assim. Os pés que tentavam alcançá-lo, agora pareciam pedras de gelo e se contorciam em câimbras terríveis.
Toda a dificuldade em respirar fez com que algo quente se sobressaísse ainda a todas as sensações. Era vermelho e manchava alguma extensão de água e espuma que cercavam meu corpo frio, quase congelado. Ainda restava alguma força, portanto ainda rebatia os braços e tentava manter o rosto acima da superfície.
Não durou mais do que dez minutos. Foi um reboliço violento e gigantesco, mas era totalmente vão. Ainda foi possível sentir a água gelada percorrer toda as vias respiratórias antes de encher os pulmões e permitir-me a inconsciência. Fez-se, então, muito silêncio.
sexta-feira, 31 de julho de 2009
Sem despedidas
Saber-te tão longe foi a minha maior dor. Não me despedi como queria e quando menos esperava recebi uma notícia que, por mais difícil que tenha sido aceitar, cedo ou tarde eu sabia que viria. Foi a minha maior dor, meu choro mais desesperado, a indignação mais insuperável... Quando eu te perdi deixei que muita coisa fosse junto e eu nunca vou esquecer daqueles dias.
Você não sai da minha cabeça e eu só queria poder ter você mais algumas horas. Só queria que você estivesse ao meu lado pra me ouvir dizer o quanto eu te amo ainda. O quanto memórias me vem e me trazem o melhor de você. Eu queria só mais um dia com você e então fazer ter sido válida toda a espera, toda a angústia e saudade.
Ainda me lembro das cartas que te escrevi e do quanto eu me sentia bem ao entregá-las. Lembro-me das conversas e das suas palavras, palavras que eu não vou esquecer.
Eu te olhei e vi fragilidade onde não existia. Em você vivia o amor. Um amor louco pela vida e por isso você lutou tanto por viver.
Me lembro da dor que senti quando abandonei o elevador e ao girar na direção da porta azul, onde estavam as letras “U.T.I.”, vi sua cabeça esforçando a inclinar-se para ler alguma carta recebida há pouco, provavelmente de Bruno. Ali não havia mais como segurar o choro que eu tentava prender desde a véspera.
Atravessei a porta azul e fui ao seu encontro logo menos ter lavado as mãos, como orientara a enfermeira. Quando coloquei-me aos pés do leito senti um frio horrível na barriga, como se em meados do verão se desse um inverno rigoroso em meu estômago. Meus olhos, muito contrários ao estômago, estavam em brasa e cheios de lágrimas, prestes a romper em um choro que havia sido guardado com muito esforço.
- Não chora, Vi.
Foi só o que me disse para destruir todo o meu empenho até ali. Eu nunca havia vivido situação de qualquer ordem semelhante. Era a minha primeira vez e já tinha sido o bastante. Naquele momento poderíamos ter ido embora e jamais voltado àquela situação.
Mal sabia eu que aquela era a primeira vez, mas que ainda viriam outras visitas. Mal sabia eu que não te ver diariamente, ainda que plantada sobre aquela cama, mesmo que pelo insuficiente tempo de 15 minutos, seria a única forma de obter algum alívio.
Fato é que os dias em casa não passavam e a ânsia por notícias era azorragante. Os próximos 52 dias foram amargos demais. Impaciente não via a hora de ir visitá-la, mas isso se tornava cada vez mais raro.
Nosso drama começou no dias 2 e 3 de Dezembro daquele ano. Nosso último ano estudando juntos. Nosso último ano naquela escola. Pouco antes, no primeiro dia de dezembro, fomos ao parque, brincamos, nos divertimos. Todos juntos, nem imaginávamos como aquele dia nos ficaria parecendo uma despedida, mais tarde.
Ainda antes do Natal foi quando eu conversei pela última vez com você. Quando te vi depois disso, estava induzida em coma e reagia a poucos estímulos. Ligada a diversos aparelhos, dreno e eletrodos, resistiu até o dia 24 de Janeiro, quando por fim, sem despedidas faleceu.
Era quase véspera do meu aniversário e foi muito difícil entender que você jamais o comemoraria comigo novamente. A pior dor.
Às vezes a saudade me assola de maneira sufocante. Eu ainda tenho as cartas que não pude te entregar (guardarei para sempre) e às vezes ainda sonho com você. A dor que mais dói, Cassia, é a saudade que eu tenho de você. Uma dor incurável.
Muita saudade!
Sedado
Uma vez eu te disse que queria ser sedado. Acho que não te conhecia direito, pois me surpreendi ao ouvir que também você queria. No dia falamos um pouco sobre isso, mas eu nunca pude ilustrar a minha vontade e acho que você nunca a entendeu.
Seria um alívio ao peito, um descanso à cabeça, um silêncio profundo e uma serenidade absoluta em mim. Seria um banho de água fria em minha impaciência. Nessa minha ansiedade em viver a vida que não posso saber.
Queria por fim ao meu ímpeto de testar e conhecer, observar e sentir. Tudo de uma só vez. Um saco. Uma impaciência sem limites que não me deixa em absoluto repouso tempo algum.
Sinto-me preso. Realmente preso a essa ansiedade desesperadora. Que me parece a cada dia mais devoradora.
Queria um remédio que me acalmasse e me pusesse e sono profundo. Que me libertasse de tudo o que não detenho e ainda me traz a violenta necessidade de cumprir com os tratos que não me fiz, mas que aceitei por gosto.
Das nove
Quando nossas bundas esquentam as poltronas que nos separam do chão e nos guardam o melhor lugar em frente à televisão, qualquer força empenhada para erguer-nos dali é incômoda. É natural que o conforto e calor do estofado nos mantenham fiéis o maior espaço de tempo possível e saudosos quando distantes. Inertes, somos incapazes, muitas vezes, de abalar nosso comodismo, mesmo sabendo quão bem isso poderia nos trazer. É assim que nos tornamos revolucionários domésticos.
Comodamente colocados ante o televisor, captamos atentamente aos informes arremessados em brasa em nossas direções. É estabelecida a ligação direta entre a informação e nossa (in) consciência. Nos revoltamos e maldizemos os vilões expostos. Indignados, prometemos a nós mesmos realizar vingança. Enfim, aceitamos que algo deve ser feito.
Estamos agora plenamente insatisfeitos com a realidade e absolutamente comprometidos a mudar em definitivo.
É lamentável, porém, que em poucos minutos nossa consciência já tenha se vinculado a outra causa nobre, talvez maior que a anterior, por que não? É muito difícil pensar na realidade que se vive quando há afeto maior à causa da mocinha da novela.
Mas a culpa não é nossa, afinal a telenovela vem logo após o telejornal e mais tarde já é a hora de ir para a cama.
Dormir é o melhor remédio para esquecer.
Sufoco
Era um pedaço de papel, mas eu não o via. Era mais do que branco, ou da cor que ele fosse. Era um pedaço de papel que me incomodava enormemente, me paralisava. Ele não foi prudente, me desafiava, me tocava, me intrigava, me enlouquecia e continuava a ser um pedaço de papel. Maldito pedaço de papel.
Era um pedaço de papel que me amarrava qual camisa de força. Não escapava, não podia me livrar custasse todo o meu esforço. Ele estava ali, me estrangulando indiferentemente. Não vibrava nem ressentia, me esmagava sem qualquer gesto. Aquele pedaço de papel me consumia livremente.
Não me doía mais. Não sabia o motivo pelo qual me rebelava diante a um pedaço de papel, mas estava descontrolado.
Não via saída, era matar ou morrer. Um pedaço de papel ganhava a batalha e isso me enfurecia. Fui cegamente guiado pelo desespero. Prendia a respiração, aflito, e não pude evitar: Enchi-o com minha caligrafia, feroz e imponente, sem temores. Só assim retomei minha liberdade.
sábado, 25 de julho de 2009
Alguém
Quando se tem alguém, não faz diferença o dogão da esquina ou aquele restaurante que você tem até que cortar as unhas dos pés para entrar. Um pastel oleoso ou um sushi, pouco importa. Quando se tem alguém só importa é estar com esse alguém.
Você toma banho, escolhe a melhor roupa, e a melhor a cueca, o melhor calçado. Escova os dentes três vezes, passa fio dental, sorri na frente do espelho a cada três minutos até sair de casa, só pra checar. Passa perfume até no cabelo, confere o hálito, os bolsos, os dentes e finalmente sai. Olha duas ou três vezes para a lojinha de doces na frente do ponto, vai até lá, compra uns chicletes de menta e volta para o ponto. Quando se tem alguém, nada pode dar errado.
Isso faz de cada passeio uma nova missão. E é sempre a melhor sensação quando no lugar combinado, depois de esperá-la por alguns quarenta minutos, encontrar de novo aquele alguém. Não importa o resto do encontro: Por esse momento, toda a ansiedade até ali já valeu. Não poderia ser melhor.
Som ambiente
Hoje a música pode ser muito facilmente acessada em computadores, aparelhos de som, televisão, eventos, etc. Isso é um fato maravilhoso, afinal todos temos uma ‘trilha sonora’, não é? Uma música para cada momento, cada lugar ou ainda para cada lembrança.
Contudo essa acessibilidade e transportabilidade da música passam a ser um problema para muita gente quando combinadas com a falta de educação de algumas pessoas. Está lá, bem visível em cada coletivo regulamentado na cidade de São Paulo, o aviso: “É proibido o uso de aparelhos sonoros. Lei municipal nº 6681/65”, mesmo assim quem desfruta diariamente de um agradabilíssimo tour a bordo de um coletivo pela cidade de São Paulo já foi obrigado a compartilhar do gosto musical de alguém que, talvez por não saber ler, ligou seu belíssimo aparelho celular, ou mp3, mp4, mp5, (...), ou mpn no auto falante.
Pobres daqueles que, como eu, devido a invencível durabilidade de seus (não) fones-de-ouvido, se vêem forçados a se entregar ao gosto musical dos não educados.
sexta-feira, 24 de julho de 2009
Aprendizagem
Sempre dizem que é errando que se aprende. Acho isso um pouco confuso. É estranho pensar que temos de nos ferrar antes de fazer algo como deve ser realmente feito e que só assim aprendemos. É estranho e é triste também.
Se temos de errar e nos ferir toda vez que precisamos aprender algo, é masoquismo da nossa parte, então, persistir no erro? Por que levamos tanto tempo para aprender certas coisas?
Tem coisas que deveríamos nascer sabendo.
